31 dezembro 2020

O mundo acabou e o inferno é aqui

 
Último dia de 2020, um ano infernal para se resumir.
PANDEMIA. Um Corona vírus, Sarscov 19, mais conhecido como Covid, já deu a volta no planeta inteiro várias vezes e apresenta mutações altamente contagiosas. Em um ano tudo mudou.
Trancados, desempregados e desesperados. Eu e boa parte das pessoas que conheço.
O Presidente é um doido de pedra, a incompetência é a marca de seu governo, e hoje já sâo 192.000 mortos. Nada de vacina por aqui, enquanto na Europa já se aplica a segunda dose.
Perdemos muita gente linda e boa, artistas, pensadores, jornalistas, pessoas de quem precisávamos para a construção de um novo tempo. Se foram.
Tudo está muito louco, feminicídios aos montes, radicais de todos os lados invocando seus mais profundos ódios, quase 30 crianças mortas pela polícia, vários crimes bárbaros cometidos por conta de racismo.
Tá todo mundo doido !
Em Agosto, descobri que fui invadida por um câncer de mama.
Acho que tudo já está tão surreal que nem consegui me abalar. Sério, do fundo do meu coração, estou tranquila (ou anestesiada, sei lá). Tenho cá pra mim que enfrentar este câncer será como atravessar um portal, preciso mudar minha vida, do jeito que está nâo é mais viável. Quatro anos trancada dentro desta casa, cuidando 24 horas por dia de uma pessoa cujo único objetivo na vida é ver a vida passar sem que ela precise fazer absolutamente nada.
Nâo é possível amar na escravidão.
Não nasci com personalidade que me permita ser escrava de ninguém.
Toda a minha capacidade de resiliência se esgotou.
Se é para eu sobreviver a este câncer, eu quero minha vida de volta.
Sinto muito pela minha mãe que esperava que eu fosse sua escrava até o fim dos meus dias, não serei.
Eu dei 5 anos e toda a saúde que eu tinha.
Agora é hora de me recriar. 2021 será o ano para cuidar de mim.
Só poderei trabalhar em 2022, e isso é outro absurdo.
O ano nem começou, e para mim já está com ingressos esgotados.
Mas também teve algo revolucionário: em Setembro comprei um Ukulele e estou aprendendo tocar sozinha, com o atrevimento e a obstinação que me são característicos.
Plantei algumas árvores, vi milhares de filmes, e passei todo o nervoso que é possível um ser humano passar sem ter um AVC.
No geral se eu morrer está tudo ok, tô de boa com a existência.
Falei com quem tinha que falar, viajei sempre que pude, não tenho nada pendente pra resolver com ninguém. Tem aquele moço que não me quer mas não me larga, mas no fundo, no fundo, bem lá no fundo, eu sempre soube que não daria em nada, então também com isso eu estou tranquila, amor não correspondido é uma droga voraz, mas também é possível largar, a fase da abstinência dói pra caramba, mas é altamente pedagógica.
Se eu sobreviver vou me dedicar à ir embora morar na montanha, reflorestar uma certa pedreira e tocar muitas canções para os passarinhos.
Vou lutar para estar viva e livre.
Sinto muito pelos outros, mas chegou o tempo de lutar por mim.



09 maio 2020

Jubileu


Na noite que o 50 chegou, eu estou só.
Exatamente como naquele primeiro dia em que me tiraram a ferro.
Novamente é véspera do Dia das mães.
Ela desde sempre preferiu dormir e não participar.
O meu papel de coadjuvante fora acordado sem que me consultassem.
Erro crasso, estraguei o projeto na largada.
Agora é 2020, o mundo virou do avesso por conta de uma epidemia mundial, Covid 19. Todos trancados em casa (em tese, muita gente horrível nas ruas, sem máscaras), o medo da morte (deles), os piores sentimentos aflorados...
No Brasil um fascista está no poder, espalha ódio e ignorância por onde passa e metade do país o abençoa com grunhidos de porcos a caminho do abatedouro. Bestas desumanas.
Os valores foram invertidos: mulheres amamentando são chamadas de imorais, afirmam categoricamente que a Terra é plana como uma pizza, contestam a ciência, pregam um Cristo que recebe via cartão de crédito e discrimina qualquer diferença da liberal classe média machista racista xenófoba.
Estou trancada em casa faz quatro anos. Não tenho um emprego, virei escrava do lar. Cuido d'Ela cuspindo fel, enquanto ela se faz de besta e regozija.
Não estou feliz, nem saudável. 
E não me dão a caridade de ser ouvida quando tento reclamar, pois afirmam que Deus está vendo meu esforço e minha bondade em servir por vontade própria 24 horas por dia, por amor a Ela. Além do mais tenho comida e um teto onde me abrigar. É unânime: devo ser escravizada e me sentir feliz pois serei recompensada lá no céu quando eu morrer.
Alguns dizem que sentirei saudades destes dias.
Ou eles estão loucos ou eu estou, e nem percebi.
Algumas coisas foram boas, a ausência de dinheiro me fez aprender o minimalismo, o consumo deixou de ser prazer, passei a usar todas as coisas que acumulei ao longo dos tempos, aprendi a aceitar e defender meus limites, e agora consigo verbalizar e sinalizar quando me sinto desrespeitada.
Não sou mais Terra de Ninguém.
Agora não reviro minhas tripas tentando agradar e ser aceita por quem quer que seja.
Aprendi enfim que o amor da minha vida sou eu.
E passei a tratar meu corpo com carinho, ele têm sido antes de tudo um forte, nordestina carne amiga.
O coração ainda é burro tadinho,um iludido, fica tentando façanhas infrutíferas: ama quem não me quer, ama quem só vê a si mesmo, ou ressuscita fantasmas que o vento levou... O melhor é não dar muita atenção...
Não há uma só esperança olhando daqui até o horizonte, nenhuma perspectiva de futuro. Crise mundial, desemprego mundial, epidemia mundial.
Se Ela me faltar não tenho nenhum dinheiro para sobreviver já na manhã seguinte, prognóstico : moradora de rua.
Tenho barraca, saco de dormir, mochila e carrinho de bagagem, tenho também uma bicicleta. Pelo menos posso sair por aí, sem destino.
Por conta da epidemia, tenho conversado com pessoas, acho bacana não deixar nada por dizer, se morrer vou leve.
Ontem o meu igual me procurou, apesar das falas repetidas de nosso teatro particular, foi bom poder falar e ouvir com serenidade de nosso laço imaginário que já beira os 33 anos. Dá conforto saber ter morada na memória de alguém.
Nós realmente somos um, mesmo não sendo e sabemos disso. Amo essa liberdade de sermos sem estarmos.
50 anos. Jamais imaginei. Jurava que não chegaria aos 40.
Agora eu desenho, faço coisas em madeira, costuro, aprendi a tricotar de verdade, sei reformar uma casa todinha, morei em vários lugares, plantei centenas de árvores, instalei bibliotecas virtuais em três quimioterapias infantis, ajudei a alfabetizar pessoas, trabalhei com idosos, com população em condição de rua, com mulheres vítimas de violência. Plantei hortas com trabalhadores, criei brinquedos com crianças, ensinei cuidar da água, da terra, do lixo.
Subi montanhas, mergulhei em cavernas, atravessei continentes, tomei duas anestesias gerais, fiz duas cirurgias, voei, nadei. Casei 4 vezes. Declarei todos os meus amores. Passei vontade, passei vergonha, passei nervoso.
Enfrentei o medo até ele desaparecer.
Parei de alimentar os monstros.
Me sinto bastante diferente. Tão diferente que a inadequação pode ser vista da Lua.
Meu maior desejo hoje é o isolamento. Uma casinha pequenina construída com as minhas mãos, lá no pé daquela montanha. Jardim, horta, pomar, caramanchão atelier. Eu, os bichos e a roça.
É noite de Jubileu, estou só, como naquele primeiro dia.
Anteontem foi Lua de Wesak. Eu me sinto bem iluminada.
Miguel continua comigo, faz uma graça, prega uma peça, ontem mesmo apagou um texto enorme em que eu descia a lenha na Humanidade. Acho que era forte demais para os mortais, huahuahuahuahuahuahua, ele deletou, fiquei brava na hora, depois ri com ele, caçoando da minha cara.
Durante toda a vida me chamaram de louca, sempre odiei, sempre me achei realista e lúcida.
Agora depois de quatro anos de claustro, suspeito que endoidei. Mas essa doidêra dá uma serenidade boa, que antes eu não tinha. Hoje eu faço 50 anos e a única coisa que sinto é que me basto.

05 abril 2020

Na balança: entre pedras e velas


Abril/Ano 2020.
Tenho 50 anos, nasci em um tempo em que as saias eram curtas, os sutiãs foram queimados, as mulheres passaram a tomar anticoncepcionais e lutar pelos seus direitos, inclusive o direito ao prazer sexual.
Desde as cavernas, as fêmeas de minha família foram dominantes, mas concederam aos machos a ilusão de serem os detentores do poder.
Contudo na prática do exercício de comando, o buraco sempre foi mais embaixo nas entranhas do triângulo.
Minha avó nordestina, sertaneja, durante anos foi mãe solo, enquanto seu marido migrou em busca de sobrevivência. Quando reagruparam, foi mão de obra em pé de igualdade ao lado de seu companheiro, usou calças em um tempo onde as “damas eram mal vistas” se adotassem estas vestes. Educou filhos e filhas para autonomia, e nós nunca ouvimos falar de tarefas ou atividades associadas ao gênero.
A força de trabalho é igual quando o objetivo é sobreviver.
O sertanejo antes de ser um forte, é um sábio !

Cresci durante uma ditadura, lutar por liberdade e direitos, era tão natural quanto respirar. Sempre fui combativa e eloquente, mas antes de tudo, sempre fui coerente com minhas origens, minha educação e a realidade das necessidades do lugar onde vivia.
Sou cria de matriarcados.
Minha mãe casou aos 19 anos, com 23 assumiu o cargo vitalício de chefe de família, porque meu pai pensava que manter sua vida de vícios e prazeres, era mais importante do que a alimentação e a moradia de sua família.
Aos 26 anos minha mãe tornou-se uma “ mulher desquitada”, o que na boca dos conservadores de plantão era sinônimo de “largada do marido” ou “perdida”.
Ela trabalhava para nos manter, voltou a estudar, e ainda guardava toda e qualquer moeda que passasse por suas mãos para investir nos meus futuros estudos e na compra de sua casa própria.
Juntas completamos o primeiro grau, juntas entramos no segundo.
Meu pai por sua vez, nunca pagou pensão e preferiu abrir mão do direito de visita aos finais de semana, porque atrapalhava sua diversão.
Guarda compartilhada ou cuidados parentais eram pura ficção.
Minha mãe formou sua filha no nível superior.
Meu pai ouviu falar do assunto...

Trabalho desde que aprendi a somar.
Meu avô falava: “ serviço de criança é pouco, mas quem não se atenta é louco.” Era ali, enquanto aprendia alguma pequena tarefa, que era lapidada minha autonomia.

Com 15 anos, eu trabalhava oficialmente com registro em carteira, bancava minhas despesas, participava do orçamento da casa e tomava minhas próprias decisões. Viajava, tinha vida social e participação política.

Morava em um bairro onde 60% das famílias eram chefiadas por mulheres, responsáveis pelo sustento de filhos, netos e agregados.

Não me considerava feminista, ouso dizer que nem reconhecia a força do machismo, porque aprendi desde o útero de minha mãe, a disputar pela vida me encarando como um adversário sem gênero em pé de força e igualdade.
Foi só quando fui fazer minhas primeiras incursões no que eu chamo de “mundo exterior” (fora do bairro onde nasci e me criei até os 15 anos) que me deparei com o tal “patriarcado”.

Não sou um animal de doma fácil, sou arisca e muito provavelmente se aprisionada devo cair morta, igual pardal quando colocado em gaiola.
Minha força é de liberdade.
Não me dou com postura passiva, não aceito alcunha de oprimida, com certeza sou a primeira a ser fuzilada após o grito de “cale sua boca”.
Não sei calar, cale a boca já morreu, quem manda em minha boca sou eu, e mando também na roupa, no bolso, na escolha, e no que eu bem entender... Resultado: conflito, muito, muito conflito.

Sou obediente, quase subserviente, quando a fonte do comando vem do respeito. E respeito é via de mão dupla.
Sempre tive uma armadura de rebeldia, preparo e competência.
Se o machismo me esbarrava, eu devolvia uma voadora e lhe quebrava os dentes da frente.
Mas fui muito cega e obtusa em não entender que não somos todos iguais.
Como as minhas armas funcionavam para mim, eu (bem tola) achava que funcionaria para qualquer um, e cobrava das vítimas uma postura de combate.
Como pode alguém ferido combater em igualdade?

Por duas vezes fui vítima de violência sexual, em uma achei que tinha matado o cara, porque bati a cabeça dele numa parede até ele cair desmaiado sangrando (sobreviveu, ainda bem), na outra eu bati em um homem de 1,90m como quem bate o tapete para cair as migalhas...
Eu sou um cão raivoso envolto em pelúcia.
Eu sou assim, mas não enxergava que nem todo mundo é assim.
Foi só quando uma amiga valente me relatou chorando, o tamanho do medo que sentia ao voltar para casa todas as noites, é que percebi o quanto sempre estive cega.
Não sinto medo.

Minha tribo é de mulheres com sangue nos olhos e com fogo nas ventas, mas existem outras tribos.
De onde eu vim, se você fosse frágil, não sobreviveria.
Minha natureza é de obstinação, enfrentamento e improviso.
Se precisar atravessar um rio e não for possível nadar ou construir ponte, eu voo.
Muito cedo ganhei o título de louca. Não aceitei o crachá.
Questionei, argumentei, entristeci, rompi laços e relações, e não me convenci do porquê de tal atribuição.
Sou realista, prática e muito atenta à minha intuição, e ao meu querer.
Um amigo um dia me definiu como um míssel: localiza o objetivo, mira e buum !
Aceito.

Sempre lutei por tudo o que quis, e trabalhei muito por cada objetivo que conquistei, paguei cada centavo pela liberdade que deveria ser gratuita, mas não é, e dela não abro mão.

Eis que chego ao assunto que me fez escrever este texto: o machismo, o feminino, e o dinheiro (como arma de poder).
Sempre estive cercada por homens, achava que eles eram criaturas mais previsíveis, portanto “mais fáceis de lidar”. Eles se sentiam a vontade comigo pois não se sentiam ameaçados, e eu me sentia a vontade com eles pois não me sentia ameaçada.
Pode se prever tudo que ouvi ao longo dos meus 50 anos...
É recorrente o discurso: “ Mulher não gosta de homem, mulher gosta de dinheiro”, e eu só no protesto, discurso, palestra e comício .
Quantas vezes abri a carteira, e esfreguei o meu dinheiro, na cara dos infames. Armei treta com gregos, troianos e espartanos; que nunca precisei de cueca para bancar meus gozos ou meus vícios.
Ninguém aguentava mais a minha conversa de separar o joio do trigo, direitos iguais, contas rachadas pau a pau...

Enquanto isso, dentro do partido fêmea, muitas moças se esbaldavam sem piedade, do recheio das másculas carteiras.
E eu sem dó, metia a sentença e acusava a todas, sem ler os autos do processo.
Outras vezes, quando provocada com esta frase, bradava de peito cheio: Só se for as mulheres com quem você anda !!!
O que eu não percebia, é que ao invés de defender minha igualdade, eu estava engrossando o cordão dos xingadores de mulher.
Um dia, uma colega de trabalho (que eu considerava deveras controversa), botou o dedo no meu nariz e disse:

_Você é que é trouxa ! Comigo homem tem que pagar mesmo, eu tenho que fazer unha, depilar, passar creme, maquiagem, e vou dar prazer de graça? Nada disso, tem que pagar para dar valor !

Eu fiquei estupefata. Nunca havia colocado fatores econômicos no meu sexo. Nem mesmo esperei voluntariado para ir atrás do meu orgasmo. Mas em alguns pontos ela tinha alguma coerência: os gastos femininos de manutenção eram bastante incompatíveis com os masculinos e a valorização tinha uma curva favorável àquelas que impunham exigências.

Tive quatro relacionamentos que denomino “casamentos”, e mesmo estando em condição financeira inferior a de meus maridos, minha participação nas finanças de casal sempre foram em regime igualitário 50% a 50%.
Obviamente saí de todas as relações falida.
Mas sempre me reconstruí.
Nunca levei um centavo de ninguém.
E estufava o peito ao falar de minhas falências, com orgulho.
Oi???
Orgulho em falir???
Como assim???
Percebo agora meu próprio machismo.
Considerava outra fêmea como inferior por aceitar dinheiro como forma de compensação.
Não entendia o fascínio masculino em pagar por sexo, enquanto namoradas, esposas e afins, ficavam em casa na seca, mesmo ofertando prazer gratuitamente.
Como poderia um ser preferir desfrutar de um bem de consumo coletivo e desvalorizar uma riqueza com adicional de exclusividade?

Sempre defendi as prostitutas pelo profissionalismo e pela coragem no exercício de suas funções, mas sempre fui muito crítica e agressiva com mulheres que lucravam com o poder nas relações afetivas/sexuais.
Tinha uma visão machista, de homens vítimas de mulheres que exerciam sua feminilidade sem ética ou escrúpulos.
Me incomodavam as pensões, as partilhas de bens, as indenizações como forma de compensação a traumas e dores intransponíveis.

Fui traída, sofri abuso psicológico, gaslighting, vivi um casamento extremamente tóxico e quando comuniquei ao indivíduo o término da relação ele me disse:

_Como você vai sustentar seu padrão de vida, você não ganha o suficiente nem para comer??? Você não sobreviverá um mês!

Oi???
Como assim???
Tirei meu sustento do meu trabalho desde os 15 anos de idade, paguei meus estudos, minhas viagens, meus discos e livros, minhas calcinhas, meus absorventes, meus anticoncepcionais, e vem um cidadão olhar pra minha cara e questionar a capacidade de gerir a minha própria subsistência ???

Fui embora deixando para trás o dobro do patrimônio de quando cheguei.
Parti de nariz levantado, alma em trapos e bolsos vazios.
Vivi os melhores anos da minha vida depois daquele término.
Mas isso sou eu.

Que direito eu tinha de comparar toda e qualquer mulher à minha imagem e semelhança?
Que tipo de raciocínio é esse que vê superioridade em ver dilapidado seu próprio patrimônio???
Estão erradas aquelas que deram seu tempo, saúde física e mental numa relação doente e exigem compensação financeira por suas perdas ?
Ou aquelas que se tornam reféns financeiras de seus maridos em relações doentes ?
Quanto custa uma traição?
Quanto custa a falta de atenção, o abuso psicológico, a exclusividade sexual numa relação afetiva/sexual em que não há acolhimento e o orgasmo não está presente?
Quanto eu cobraria de um sujeito que após anos de casamento ainda me considerava incapaz ?

Minha mãe não exigiu pensão, e só eu sei o tamanho da dificuldade que passamos juntas e o tanto que custou a ambas, ela criar aquela filha sozinha.
Talvez eu tenha criado ali um mito de supermulher.
Talvez essa força de abrir oportunidades na porrada tenha me cegado.
Talvez fossem inteligentes aquelas que administravam muito bem e cobravam por seu patrimônio físico e afetivo.
E agora do alto dos meus 50 reflexivos anos, me deparo com uma situação nova: o caso de um sujeito que após um relacionamento de doze anos em que assumidamente traiu, abusou psicologicamente de sua parceira, decidiu minimizar o impacto causado, pagando uma mesada para auxiliar no sustento de sua agora ex parceira.
O sujeito já se encontra em um novo relacionamento, e agora enfrenta problemas com a atual, que não consegue aceitar participar de um projeto de futuro compartilhado que inclui um auxílio voluntário a uma mulher adulta, saudável, que goza de toda sua capacidade produtiva e intelectual.
Paradigmas.

O trauma repete em looping a cena de meu ex marido me questionando sobre a minha capacidade de me sustentar.
Vejo minha mãe trabalhando sem férias, para manter nossa família viva.
Vejo a moça que segurou o rojão de um amor turbulento por 12 anos.
Vejo a outra moça que não questiona o fato de seu parceiro pagar indenização pelos absurdos que cometeu, mas sim por não romper o vínculo e insistir em repetir o erro na nova relação.
Vejo o sujeito que ainda joga sobre a nova companheira, o peso de sua irresponsabilidade em relação à anterior:
_Não tem como eu parar ? Você suportaria a culpa de saber que alguém está passando necessidade por um capricho seu?

Nem sei o que diria (sem ser extremamente ofensiva) em resposta a ele.
Oh Mãe perdoa, eles não sabem o que dizem !

Quanto em dinheiro é suficiente para indenizar 12 anos de uma vida?
Quantas mulheres serão necessárias para um homem saciar sua culpa?
Quantos homens olharão para suas parceiras e as perceberão como incapazes de gerir seu próprio sustento?
Existe maneira de valorar em moeda a dor de uma traição?
Está errada aquela que cobra adiantado pelo sacrifício a que sabe que se sujeitará?
Estaria certo o conceito de: “Gasto eu o que ele gastaria na rua “ ???

“ Tá tudo bem eu ter minha vida, eu dou tudo dentro de casa, não falta nada para ninguém, tenho direito aos meus prazeres!!!”

“ Ela não tem do que reclamar, sempre teve tudo do bom e do melhor!!!”

Deixa ele pagar, me dá dinheiro para aplacar sua culpa e eu nem preciso me deitar com ele..”.

Sugar Babies, Sugar Daddies...

Me sinto incapaz de analisar, tenho um desconforto visceral .
Não consigo ser racional quando analiso a mistura de finanças e afetos.
Sou taurina, posso ser muito generosa, contanto que seja uma escolha minha.
Mas não tentem me privar de minha liberdade ou de usufruir das conquistas adquiridas como fruto meu trabalho.
Prefiro não opinar onde cada um enfia seu dinheiro. Não seria justa.
Não aceitaria mandos sobre aquilo que conquistei com meu suor.

Sempre fui forte, posso ser destruída mil vezes, me reconstruo.
Sou pela partilha da colheita entre aqueles que trabalham.
Não sou muito paciente com aqueles que escolhem tirar vantagem de outrem como modo de viver.
Reconheço que sou machista, que não posso tomar meu exemplo como ponto de partida, por ser um ponto fora da curva.
Não aceito a alcunha de louca, não como cocô e não rasgo dinheiro.
Confesso ter pouca compreensão sobre o comportamento humano.

Por acaso sou mulher, admito que fui moldada pelo meio em que vivi a ser forçadamente forte, a cultuar certo desprezo com as fragilidades alheias e usar toda minha energia e preparo na defesa de quem precisa, de forma ética e justa.
Por muitas vezes sou ingênua e tola por acreditar que o lado luminoso dos seres será mais forte que o lado das sombras.
Nem sempre é, mesmo assim tenho tendência a crer.
Demorei muito a assumir o feminino em mim, e ainda reluto em ter um olhar positivo com as falhas de minhas semelhantes.
Espero conseguir julgar menos, compreender mais e aceitar as fragilidades dos seres, e não usar os filtros de minhas paixões que tanto atrapalham a minha capacidade de enxergar a realidade.

Apesar de não me reconhecer entre as fadas, as santas, as mestras, as guerreiras ou bruxas, espero encontrar uma identidade fêmea em que me sinta acolhida, onde exista o conforto possível, um ponto de equilíbrio entre as velas e as pedras.

Desejo um mundo onde as oportunidades sejam mais justas, onde cada uma de nós possa ganhar e escolher como gastar seu próprio dinheiro.
Que nenhum ser precise que outro provenha seu sustento.
Que a força que liga os seres seja de afeto e não de domínio.
Que cada um tenha consciência de seus atos e dos impactos por eles causados sobre si e sobre aqueles que estão ao seu redor.
Que tudo que tenha vida, seja livre!
E que cada um seja capaz de carregar sozinho o peso daquilo que acumular.

Espero ser competente em minha capacidade de amar e cada vez menos precisar analisar a vida e o comportamento dos seres com quem divido esta existência.

Não compreendo homens.
Não compreendo mulheres.
Humanos são enigmas muito difíceis de desvendar .
Eles pensam que a briga é por dinheiro.



30 julho 2019

O mundo virou.


Voltei dois anos depois. Não porque esteja feliz, ao contrário voltei para dar relato histórico.
Um dia dormimos e acordamos em um pesadelo.
Em 2019, o mundo todo apresenta tendências extremistas de direita, cresce o racismo, os preconceitos, e os movimentos contrários à barbárie parecem ineficazes.
No Brasil, a situação é: um presidente homofóbico, xenófobo, suspeito de ligações com milicianos e que quase que diariamente profere ofensas e impropérios em plena rede nacional. Seus apoiadores vomitam ódio. Nas redes sociais robôs compartilham freneticamente posts e tweets fazendo apologia ao ódio e violência.
Gente matando gente. Morrem mulheres, negros e índios estourando os índices da brutalidade. Estamos cercados de estupidez e ignorância.
Ameaças, injustiças e queda da constituição e dos valores éticos e morais. Declararam guerra à Ciência e tentam desmantelar tudo o que foi conquistado em décadas de esforço e dedicação. Declararam a ignorância como forma de dominação.
Eu me desespero. Vejo o noticiário e choro copiosamente.
Não tenho nenhuma perspectiva de futuro. Também não sou um ser que alimenta esperanças.
Me sinto deprimida, triste e só, entretanto não me sinto frágil, sinto exatamente o oposto, tenho ganas de raiva e vingança. Assisto horrorizada brotar em mim algo que ri com sarcasmo e deseja o que há de pior para aqueles que são responsáveis por esta tragédia.
Elegeram o novo Hitler, merecem se afogar na própria bile.
Sou só lágrimas e horror.
Não me reconheço.

11 agosto 2017

Sim, chegou o dia, acordei VELHA


 É tanta coisa que acontece, tanta água por baixo da ponte, aqui onde passava boi e passava a boiada... Tanta coisa que a gente acaba se distraindo e quando percebe: tchanannn, tá lá !!!
Nasci num corpo fêmea que menstruou aos 13 anos de idade, até aí tudo ok, era mais ou menos a média de idade naqueles tempos... Trinta e tantos anos depois, a tal visita mensal passou a falhar, e  começaram surgir os calores que sente quem dá uma dentada numa pimenta e enxagua com um golão de cachaça... Do dia pra noite aquela pele que era úmida e um tanto oleosa, seca e ganha uma aparência de película texturizada de cristal triturado no liquidificador.
Que maluca a natureza transformer.
Tenho 47 anos.
Nem na adolescência assisti meu corpo mudar tanto.
Mesmo pedalando, os músculos estão sumindo, tão engraçado este processo de encolhimento...
Alice, lagarta, borboleta !
É quase divertido descobrir o que mudará hoje, amanhã...
Do lado de dentro continuo com 9 anos jurando que sou a poderosa Ísis.
Tenho quase certeza que sou.
Cuido bem desta carcaça, mas já é bem perceptível o início do processo de decomposição.
Acho que é à partir daqui que as loucas por estética começam o processo de mumificação, huahuahuahuahuahuahuahua...
Tô fora, por favor não o façam nem depois de morta, sou adepta a reciclagem.

09 fevereiro 2015

Caiu na rede...


Ah como me apaixonei louca e intensamente nesta tal de internet.
Amores 100% platônicos, impossíveis, irrealizáveis e efêmeros...
Como era bom amar sem saber se estava amando o criador ou a criatura, desconhecendo totalmente o sexo, a idade, gênero ou estado civil dos seres amados...
Amar um nickname, uma pasta de músicas , uma coleção de imagens...
Afogar se em tesão livre de forma. Gente sem corpo, ereção de ideias rolando livre pelas tardes no trabalho ou na rapina das madrugadas de insônia fingida...
Afagar poesias, bolinar palavras silenciosas que se esfregavam nas pontas dos dedos roçando o 

 teclado.
Deliciosos amores proibidos.
Amei muitos de vocês assim, seres que entraram em minha vida por esta tela, vindos de mundos paralelos, dimensões vizinhas, territórios não explorados, tempo espaço distantes ou não...
Vocês hoje têm cara e corpo, muitos romperam a barreira da tela e se tornaram carne e osso, mas confesso, sou tarada mesmo por suas almas...
Eu os amo abusando completamente dos limites e da liberdade da licença poética.
Eu os devoro, num canibalismo insano que nem regurgita para não ter que perder nada.
Eu lhes sugo a seiva com sede de buraco negro.
Quero nem saber, aqui o magnetismo é grande, a temperatura é alta, o tempêro é forte e o perigo é medonho e iminente.
Nunca precisei de conivência ou autorização.
Aqui é assim, caiu na rede é Love !

09 novembro 2014

Ahhh este coqueiro que dá Coco... Gabrielle, sempre Gabrieeeeeelle...


1970, num subúrbio tropical, em um sábado à tarde outonal, nasce mais uma exótica criatura estranha no ninho... A pequena baiana gostava de umas coisas bem diferentes, foi crescendo meio moleque, bocuda, vestia roupa de menino e era dada a jogar futebol, lia uns livros esquisitos, cantava e dançava quando e onde tinha vontade. Chamavam-na de maluca, pirada, doidinha... Sempre falou o que pensava, e assumia, segurava o tranco e se bancava. Invocada, botava banca de valente.
Calça preta, camiseta listada, um sapato preto com solado plataforma era certeza de estar linda e poder dominar o mundo, enquanto passava ouvia a piada: Ei Irmão Metralha, fugiu da cadeia ?
Sobre seus vestidos pretos sempre ouvia: Querida, você parece uma viúva com este vestido reto e este colarzinho de velha !!!
O tempo foi passando, e aos poucos a pequena baiana foi descobrindo que aquela estranheza que sentia chamava bom gosto e que aquela alma que lhe rondava desde o berço, era de uma certa Mademoiselle...
Quando tornou-se mulher feita, passou a "dar banana" para os ignorantes, e hoje desfila absoluta enrolada nas diversas voltas de suas pérolas falsas...
Obrigada por me tirar do limbo, antes mesmo de saber que ele existia.
Merci beaucoup Coco Chanel !
Arretadas seguimos juntas, tecendo realidades e vestindo sonhos.

17 fevereiro 2014

A Beleza


Olho lambedor. Olho viciado. Olho que de tudo quer saber do gosto e do cheiro. Olho desavergonhado, maleducado, que penetra detalhes, invade entranhas... Olho sertanejo.
"Se eu tenho olho, é pra reparar" já dizia Zé Maria, o avô...
Ela olhava mesmo, sem dó e com coragem. E desfrutava desse gozo de prazer.
O gosto do feio e o gosto do bonito sem nem sempre saber dizer qual era qual. Olhava com grandeza.
Olhava no espelho e queria ser bela, contudo se só pudesse fazer um pedido, preferiria ser forte... Ser forte era mais importante! Não negava a raça.
Ser bonita lá tinha pouca valia, servia pra quê, pra arranjar um marido, e depois ? Ser forte nem de marido precisava, dava conta da vida sozinha, sem tem ninguém pra botar cabresto. Não fora feita pra aceitar arreio.
De começo só usava roupa clara, era mesmo pra não chamar atenção, mas tinha o riso frouxo, gostava de gracejar e nem dava cinco minutos de relógio e já estava no meio da roda. Aquela mulher só faltava ter bigode, sua Tia Zilda tinha, e todos sabem: Mulher de bigode nem o Diabo pode !!!
Com o tempo o olho foi desgostando e exigindo mudança. Olho de voz grossa foi logo pedindo: Eu quero é cor !!! O resto do corpo entendeu tudinho. E acatou. E então se sucedeu algo grandioso, o surgimento da IDENTIDADE.
Guimarães Rosa disse:" O sertão está em qualquer parte, o sertão está dentro da gente. "
Era isso, aquele olho sertanejo, olho caatingueiro teve o asfalto como berço mas não negara sua raça. Aquele olho ensinou para aquele corpo o que era a SUA beleza. Aquele olho arredou a cortina e deixou a luz entrar naquela alma.
Aquele olhar, preguiçoso e bolinador, contou que não existe quando nem onde, o importante é ser.
Olho de sapo, olho de boi, olho de peixe, olho de cachorro pidão, olho MEU.
Olho EU !!!
Olho terrível ! Olho que vê até o que ainda nem existe...
Olhar grandioso. Agora eu sei onde está a beleza.

Ariano Suassuna diz: “ A beleza da zona da mata é ligada ao gracioso; a beleza do sertão é ligada ao grandioso. O sertão é grandioso e terrível em certos momentos, o que dá à beleza dele uma conotação muito diferente, muito estranha mas muito forte.”

14 fevereiro 2014

Coração Plural



Quem me conhece sabe: Amo. Se você foi um deles, fique feliz. Se foi muito importante: tá aí a homenagem. Se não está na lista: ainda é tempo, tente outra vez. Se vc só assistiu: divirta-se identificando os personagens no resumo. Se vc acha um absurdo: pegue a senha. Se vc é fofoqueiro: aproveite a deixa e avise a imprensa.

Coração Plural

Sim, amo
Continuo ainda amando todos eles
E os amarei sempre
Cada qual em seu tempo espaço
Penso sempre em cada um
Como quem rega a planta
Sonhando com vida longa, flores e frutos
Penso naquele que me contava desenhos animados,
e no quase primo tão proibido,
o príncipe loiro da sétima série,
e o tímido dono do primeiro beijo.
Amo muito e continuarei amando
meu muso cacau e o beijo depois da canção,
o shogun de coração valente,
e apesar de tudo também amo aquele
que duas vezes me destruiu, por não entender
que a tigresa pode ser escorpião e fenix
quando nasce taurina e camaleoa
Amo com doçura de mel
O terno abutre a quem dei minha carne,
o carinhoso Obaluaê que me cura,
o maluco beleza que do céu me guarda,
e o físico canhoto que do espaço me guia
Amo o gigante menino que me jogou no buraco escuro
E o demônio de cabelo enrolado, onipresente
Que tantas vezes me levou pra passear no inferno.
Amo-os todos
Amores de um dia, de verão, de viagem
Os permitidos e os proibidos
Amo muito e declaro
Amo muito e nego
Amo amar, o amor e vocês
mas sobretudo amo a mim
Que fiz meus dias incríveis, minhas histórias únicas
E ainda de quebra
Num cisco de tempo
Joguei baldes de uma tinta baiana e colorida
Na vida de vocês.
Recebam esta homenagem.
E aceitem: Este coração é plural.

(originalmente escrito em 13/10/2013)

13 fevereiro 2014

Arrebatamento

Eu tinha 7 anos. E ainda é igual agora. Assustadoramente igual. Cada palavra entrando em mim e mexendo com tudo, uma vontade de chorar, de sair correndo, de largar tudo pra trás ou pedir um abraço pelo amor de deus pela última vez...
Eu conhecia aquela dor e aquela fúria...
Eu tinha 7 anos e sentia tudo aquilo exatamente como sinto hoje.
Aos 7 anos eu já sabia, de verdade, acho que eu sempre soube, acho que isto já veio comigo de onde quer que eu tenha vindo.
Jamais esquecerei de uma tarde, família, churrasco, Vila Mazzei, todo mundo no quintal, dentro da casa alguém põe um disco na vitrola e eu descubro o que é ser POSSUÍDA.
Aquela voz cortante, aquela melodia e eu prevendo futuros, visitando outras vidas, percebendo que ali alguma coisa mudou.
1978, Ditadura Militar, Periferia, um adolescente e seu som e uma criança em pleno estado de alucinação, desgovernada, rasgada em trapos de rejeição e impotência. Arrebatada.
A música acaba, a pergunta: o que é isso ? Ele responde distante: Fagner. Era mais. Mais que Fagner, mais que Simone, mais que Sueli Costa e Abel Silva...
Era eu, nua, apaixonada, vidente, louca, velha, arrependida, inválida, abandonada. Era eu revoltada, inconsequente, passional, insana, e bandida. Eram milhares de eus, todas conscientes dentro de uma criança de 7 anos.
Eu tenho 43 anos, na tv a trilha sonora de um seriado arranca o chão dos meus pés, sinto exatamente igual, exatamente como quando tinha 7 anos...