Abril/Ano 2020.
Tenho 50 anos, nasci em um tempo em que as saias eram curtas, os sutiãs foram queimados, as mulheres passaram a tomar anticoncepcionais e lutar pelos seus direitos, inclusive o direito ao prazer sexual.
Desde as cavernas, as fêmeas de minha família foram dominantes, mas concederam aos machos a ilusão de serem os detentores do poder.
Contudo na prática do exercício de comando, o buraco sempre foi mais embaixo nas entranhas do triângulo.
Minha avó nordestina, sertaneja, durante anos foi mãe solo, enquanto seu marido migrou em busca de sobrevivência. Quando reagruparam, foi mão de obra em pé de igualdade ao lado de seu companheiro, usou calças em um tempo onde as “damas eram mal vistas” se adotassem estas vestes. Educou filhos e filhas para autonomia, e nós nunca ouvimos falar de tarefas ou atividades associadas ao gênero.
A força de trabalho é igual quando o objetivo é sobreviver.
O sertanejo antes de ser um forte, é um sábio !
Cresci durante uma ditadura, lutar por liberdade e direitos, era tão natural quanto respirar. Sempre fui combativa e eloquente, mas antes de tudo, sempre fui coerente com minhas origens, minha educação e a realidade das necessidades do lugar onde vivia.
Sou cria de matriarcados.
Minha mãe casou aos 19 anos, com 23 assumiu o cargo vitalício de chefe de família, porque meu pai pensava que manter sua vida de vícios e prazeres, era mais importante do que a alimentação e a moradia de sua família.
Aos 26 anos minha mãe tornou-se uma “ mulher desquitada”, o que na boca dos conservadores de plantão era sinônimo de “largada do marido” ou “perdida”.
Ela trabalhava para nos manter, voltou a estudar, e ainda guardava toda e qualquer moeda que passasse por suas mãos para investir nos meus futuros estudos e na compra de sua casa própria.
Juntas completamos o primeiro grau, juntas entramos no segundo.
Meu pai por sua vez, nunca pagou pensão e preferiu abrir mão do direito de visita aos finais de semana, porque atrapalhava sua diversão.
Guarda compartilhada ou cuidados parentais eram pura ficção.
Minha mãe formou sua filha no nível superior.
Meu pai ouviu falar do assunto...
Trabalho desde que aprendi a somar.
Meu avô falava: “ serviço de criança é pouco, mas quem não se atenta é louco.” Era ali, enquanto aprendia alguma pequena tarefa, que era lapidada minha autonomia.
Com 15 anos, eu trabalhava oficialmente com registro em carteira, bancava minhas despesas, participava do orçamento da casa e tomava minhas próprias decisões. Viajava, tinha vida social e participação política.
Morava em um bairro onde 60% das famílias eram chefiadas por mulheres, responsáveis pelo sustento de filhos, netos e agregados.
Não me considerava feminista, ouso dizer que nem reconhecia a força do machismo, porque aprendi desde o útero de minha mãe, a disputar pela vida me encarando como um adversário sem gênero em pé de força e igualdade.
Foi só quando fui fazer minhas primeiras incursões no que eu chamo de “mundo exterior” (fora do bairro onde nasci e me criei até os 15 anos) que me deparei com o tal “patriarcado”.
Não sou um animal de doma fácil, sou arisca e muito provavelmente se aprisionada devo cair morta, igual pardal quando colocado em gaiola.
Minha força é de liberdade.
Não me dou com postura passiva, não aceito alcunha de oprimida, com certeza sou a primeira a ser fuzilada após o grito de “cale sua boca”.
Não sei calar, cale a boca já morreu, quem manda em minha boca sou eu, e mando também na roupa, no bolso, na escolha, e no que eu bem entender... Resultado: conflito, muito, muito conflito.
Sou obediente, quase subserviente, quando a fonte do comando vem do respeito. E respeito é via de mão dupla.
Sempre tive uma armadura de rebeldia, preparo e competência.
Se o machismo me esbarrava, eu devolvia uma voadora e lhe quebrava os dentes da frente.
Mas fui muito cega e obtusa em não entender que não somos todos iguais.
Como as minhas armas funcionavam para mim, eu (bem tola) achava que funcionaria para qualquer um, e cobrava das vítimas uma postura de combate.
Como pode alguém ferido combater em igualdade?
Por duas vezes fui vítima de violência sexual, em uma achei que tinha matado o cara, porque bati a cabeça dele numa parede até ele cair desmaiado sangrando (sobreviveu, ainda bem), na outra eu bati em um homem de 1,90m como quem bate o tapete para cair as migalhas...
Eu sou um cão raivoso envolto em pelúcia.
Eu sou assim, mas não enxergava que nem todo mundo é assim.
Foi só quando uma amiga valente me relatou chorando, o tamanho do medo que sentia ao voltar para casa todas as noites, é que percebi o quanto sempre estive cega.
Não sinto medo.
Minha tribo é de mulheres com sangue nos olhos e com fogo nas ventas, mas existem outras tribos.
De onde eu vim, se você fosse frágil, não sobreviveria.
Minha natureza é de obstinação, enfrentamento e improviso.
Se precisar atravessar um rio e não for possível nadar ou construir ponte, eu voo.
Muito cedo ganhei o título de louca. Não aceitei o crachá.
Questionei, argumentei, entristeci, rompi laços e relações, e não me convenci do porquê de tal atribuição.
Sou realista, prática e muito atenta à minha intuição, e ao meu querer.
Um amigo um dia me definiu como um míssel: localiza o objetivo, mira e buum !
Aceito.
Sempre lutei por tudo o que quis, e trabalhei muito por cada objetivo que conquistei, paguei cada centavo pela liberdade que deveria ser gratuita, mas não é, e dela não abro mão.
Eis que chego ao assunto que me fez escrever este texto: o machismo, o feminino, e o dinheiro (como arma de poder).
Sempre estive cercada por homens, achava que eles eram criaturas mais previsíveis, portanto “mais fáceis de lidar”. Eles se sentiam a vontade comigo pois não se sentiam ameaçados, e eu me sentia a vontade com eles pois não me sentia ameaçada.
Pode se prever tudo que ouvi ao longo dos meus 50 anos...
É recorrente o discurso: “ Mulher não gosta de homem, mulher gosta de dinheiro”, e eu só no protesto, discurso, palestra e comício .
Quantas vezes abri a carteira, e esfreguei o meu dinheiro, na cara dos infames. Armei treta com gregos, troianos e espartanos; que nunca precisei de cueca para bancar meus gozos ou meus vícios.
Ninguém aguentava mais a minha conversa de separar o joio do trigo, direitos iguais, contas rachadas pau a pau...
Enquanto isso, dentro do partido fêmea, muitas moças se esbaldavam sem piedade, do recheio das másculas carteiras.
E eu sem dó, metia a sentença e acusava a todas, sem ler os autos do processo.
Outras vezes, quando provocada com esta frase, bradava de peito cheio: Só se for as mulheres com quem você anda !!!
O que eu não percebia, é que ao invés de defender minha igualdade, eu estava engrossando o cordão dos xingadores de mulher.
Um dia, uma colega de trabalho (que eu considerava deveras controversa), botou o dedo no meu nariz e disse:
_Você é que é trouxa ! Comigo homem tem que pagar mesmo, eu tenho que fazer unha, depilar, passar creme, maquiagem, e vou dar prazer de graça? Nada disso, tem que pagar para dar valor !
Eu fiquei estupefata. Nunca havia colocado fatores econômicos no meu sexo. Nem mesmo esperei voluntariado para ir atrás do meu orgasmo. Mas em alguns pontos ela tinha alguma coerência: os gastos femininos de manutenção eram bastante incompatíveis com os masculinos e a valorização tinha uma curva favorável àquelas que impunham exigências.
Tive quatro relacionamentos que denomino “casamentos”, e mesmo estando em condição financeira inferior a de meus maridos, minha participação nas finanças de casal sempre foram em regime igualitário 50% a 50%.
Obviamente saí de todas as relações falida.
Mas sempre me reconstruí.
Nunca levei um centavo de ninguém.
E estufava o peito ao falar de minhas falências, com orgulho.
Oi???
Orgulho em falir???
Como assim???
Percebo agora meu próprio machismo.
Considerava outra fêmea como inferior por aceitar dinheiro como forma de compensação.
Não entendia o fascínio masculino em pagar por sexo, enquanto namoradas, esposas e afins, ficavam em casa na seca, mesmo ofertando prazer gratuitamente.
Como poderia um ser preferir desfrutar de um bem de consumo coletivo e desvalorizar uma riqueza com adicional de exclusividade?
Sempre defendi as prostitutas pelo profissionalismo e pela coragem no exercício de suas funções, mas sempre fui muito crítica e agressiva com mulheres que lucravam com o poder nas relações afetivas/sexuais.
Tinha uma visão machista, de homens vítimas de mulheres que exerciam sua feminilidade sem ética ou escrúpulos.
Me incomodavam as pensões, as partilhas de bens, as indenizações como forma de compensação a traumas e dores intransponíveis.
Fui traída, sofri abuso psicológico, gaslighting, vivi um casamento extremamente tóxico e quando comuniquei ao indivíduo o término da relação ele me disse:
_Como você vai sustentar seu padrão de vida, você não ganha o suficiente nem para comer??? Você não sobreviverá um mês!
Oi???
Como assim???
Tirei meu sustento do meu trabalho desde os 15 anos de idade, paguei meus estudos, minhas viagens, meus discos e livros, minhas calcinhas, meus absorventes, meus anticoncepcionais, e vem um cidadão olhar pra minha cara e questionar a capacidade de gerir a minha própria subsistência ???
Fui embora deixando para trás o dobro do patrimônio de quando cheguei.
Parti de nariz levantado, alma em trapos e bolsos vazios.
Vivi os melhores anos da minha vida depois daquele término.
Mas isso sou eu.
Que direito eu tinha de comparar toda e qualquer mulher à minha imagem e semelhança?
Que tipo de raciocínio é esse que vê superioridade em ver dilapidado seu próprio patrimônio???
Estão erradas aquelas que deram seu tempo, saúde física e mental numa relação doente e exigem compensação financeira por suas perdas ?
Ou aquelas que se tornam reféns financeiras de seus maridos em relações doentes ?
Quanto custa uma traição?
Quanto custa a falta de atenção, o abuso psicológico, a exclusividade sexual numa relação afetiva/sexual em que não há acolhimento e o orgasmo não está presente?
Quanto eu cobraria de um sujeito que após anos de casamento ainda me considerava incapaz ?
Minha mãe não exigiu pensão, e só eu sei o tamanho da dificuldade que passamos juntas e o tanto que custou a ambas, ela criar aquela filha sozinha.
Talvez eu tenha criado ali um mito de supermulher.
Talvez essa força de abrir oportunidades na porrada tenha me cegado.
Talvez fossem inteligentes aquelas que administravam muito bem e cobravam por seu patrimônio físico e afetivo.
E agora do alto dos meus 50 reflexivos anos, me deparo com uma situação nova: o caso de um sujeito que após um relacionamento de doze anos em que assumidamente traiu, abusou psicologicamente de sua parceira, decidiu minimizar o impacto causado, pagando uma mesada para auxiliar no sustento de sua agora ex parceira.
O sujeito já se encontra em um novo relacionamento, e agora enfrenta problemas com a atual, que não consegue aceitar participar de um projeto de futuro compartilhado que inclui um auxílio voluntário a uma mulher adulta, saudável, que goza de toda sua capacidade produtiva e intelectual.
Paradigmas.
O trauma repete em looping a cena de meu ex marido me questionando sobre a minha capacidade de me sustentar.
Vejo minha mãe trabalhando sem férias, para manter nossa família viva.
Vejo a moça que segurou o rojão de um amor turbulento por 12 anos.
Vejo a outra moça que não questiona o fato de seu parceiro pagar indenização pelos absurdos que cometeu, mas sim por não romper o vínculo e insistir em repetir o erro na nova relação.
Vejo o sujeito que ainda joga sobre a nova companheira, o peso de sua irresponsabilidade em relação à anterior:
_Não tem como eu parar ? Você suportaria a culpa de saber que alguém está passando necessidade por um capricho seu?
Nem sei o que diria (sem ser extremamente ofensiva) em resposta a ele.
Oh Mãe perdoa, eles não sabem o que dizem !
Quanto em dinheiro é suficiente para indenizar 12 anos de uma vida?
Quantas mulheres serão necessárias para um homem saciar sua culpa?
Quantos homens olharão para suas parceiras e as perceberão como incapazes de gerir seu próprio sustento?
Existe maneira de valorar em moeda a dor de uma traição?
Está errada aquela que cobra adiantado pelo sacrifício a que sabe que se sujeitará?
Estaria certo o conceito de: “Gasto eu o que ele gastaria na rua “ ???
“ Tá tudo bem eu ter minha vida, eu dou tudo dentro de casa, não falta nada para ninguém, tenho direito aos meus prazeres!!!”
“ Ela não tem do que reclamar, sempre teve tudo do bom e do melhor!!!”
Deixa ele pagar, me dá dinheiro para aplacar sua culpa e eu nem preciso me deitar com ele..”.
Sugar Babies, Sugar Daddies...
Me sinto incapaz de analisar, tenho um desconforto visceral .
Não consigo ser racional quando analiso a mistura de finanças e afetos.
Sou taurina, posso ser muito generosa, contanto que seja uma escolha minha.
Mas não tentem me privar de minha liberdade ou de usufruir das conquistas adquiridas como fruto meu trabalho.
Prefiro não opinar onde cada um enfia seu dinheiro. Não seria justa.
Não aceitaria mandos sobre aquilo que conquistei com meu suor.
Sempre fui forte, posso ser destruída mil vezes, me reconstruo.
Sou pela partilha da colheita entre aqueles que trabalham.
Não sou muito paciente com aqueles que escolhem tirar vantagem de outrem como modo de viver.
Reconheço que sou machista, que não posso tomar meu exemplo como ponto de partida, por ser um ponto fora da curva.
Não aceito a alcunha de louca, não como cocô e não rasgo dinheiro.
Confesso ter pouca compreensão sobre o comportamento humano.
Por acaso sou mulher, admito que fui moldada pelo meio em que vivi a ser forçadamente forte, a cultuar certo desprezo com as fragilidades alheias e usar toda minha energia e preparo na defesa de quem precisa, de forma ética e justa.
Por muitas vezes sou ingênua e tola por acreditar que o lado luminoso dos seres será mais forte que o lado das sombras.
Nem sempre é, mesmo assim tenho tendência a crer.
Demorei muito a assumir o feminino em mim, e ainda reluto em ter um olhar positivo com as falhas de minhas semelhantes.
Espero conseguir julgar menos, compreender mais e aceitar as fragilidades dos seres, e não usar os filtros de minhas paixões que tanto atrapalham a minha capacidade de enxergar a realidade.
Apesar de não me reconhecer entre as fadas, as santas, as mestras, as guerreiras ou bruxas, espero encontrar uma identidade fêmea em que me sinta acolhida, onde exista o conforto possível, um ponto de equilíbrio entre as velas e as pedras.
Desejo um mundo onde as oportunidades sejam mais justas, onde cada uma de nós possa ganhar e escolher como gastar seu próprio dinheiro.
Que nenhum ser precise que outro provenha seu sustento.
Que a força que liga os seres seja de afeto e não de domínio.
Que cada um tenha consciência de seus atos e dos impactos por eles causados sobre si e sobre aqueles que estão ao seu redor.
Que tudo que tenha vida, seja livre!
E que cada um seja capaz de carregar sozinho o peso daquilo que acumular.
Espero ser competente em minha capacidade de amar e cada vez menos precisar analisar a vida e o comportamento dos seres com quem divido esta existência.
Não compreendo homens.
Não compreendo mulheres.
Humanos são enigmas muito difíceis de desvendar .
Eles pensam que a briga é por dinheiro.
05 abril 2020
Na balança: entre pedras e velas
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