
Panis et circensis
Sempre foi muito louca a relação que minha família tem com o mundo. Retirantes nordestinos, meu avô e minha avó não chegaram a passar fome, mas sempre trabalharam pesado pra que não faltasse alimento aos seus doze rebentinhos. E gente do campo não está condicionada a saquinho de 5 kg não, lá em casa a coisa sempre obedeceu o padrão "saca de 60 kg".
A casa sempre coube a todos, mas estes padrões de cômodos ligados as suas funções nunca foram muito obedecidos. Sempre há gente dormindo na sala da casa de minha avó, eu mesma já tive meu cantinho por lá. São dois quartos, sala, cozinha e banheiro, onde já moraram doze, fácil, fácil...
Privacidade foi uma coisa que descobri depois de velha.Quando criança toda a nossa rotina sempre foi em pelotão.Todo mundo comer, todo mundo tomar banho, todo mundo tudo junto. Isso gera uma noção estranha de individualidade. Você chega se sentir culpado por ter algo que pertença somente a você. E foi assim que eu, filha única, nunca entendi direito o que isto significava... Usei roupas que quando chegavam em minhas mãos já haviam passado por pelo menos dois donos, tive brinquedos cuja origem já era desconhecida e calcei sapatos que depois de mim conheceram outros tantos companheiros. E não era pela condição social, por dificuldades financeiras , era por hábito. Assim foi criada minha bisavó, minha avó e minha mãe, reformando coisas, aproveitando, refazendo, reconstruindo, é quase genético. E assim somos todos ...
Qualquer hora do dia ou da noite, quando se adentra aquela cozinha, há panelas sobre o fogão, e parece palhaçada, a panela é a mesma, mas quantos chegarem ainda conseguem comer dela. Mora sobre o fogão da minha avó um buraco negro as avessas...
É lindo ver quando vem a visita de algum daqueles milhares de parentes chegados diretinho da Bahia, mala de baiano é uma coisa: sai requeijão, casca de pau pra fazer chá, patuá, foto de parente, café, rapadura, doce de leite, mel, cacho de cabelo de algum recém nascido, dendê, entre outras tantas surpresas... E tome minha avó a dividir tudo irmanamente para seus filhotinhos sem esquecer a segunda geração da qual orgulhosamente faço parte e sempre sou agradada em minhas preferências... Espelho , espelho meu , existe na face dessa terra quem goste mais de requeijão com café que eu??? Duvido.
E misteriosamente os quitutes são divididos e agraciam a todos...
É a materialização da multiplicação dos pães. Minha avó e Jesus fizeram o mesmo curso.
Pensando bem, os filhos dela também, eita povo bom de multiplicação, na última contagem éramos sessenta primos, até o início deste ano. Se não fôssemos baianos, na certa seríamos chineses, hehehehehehehe...
Na TV vemos um programa explicando os conceitos da reciclagem e minha vó indignada resmunga que vivem inventando nome bonito pra coisa que ela sempre fez... E tem razão...
Sou feliz. Sei de onde vim. Sei por onde vou.
Um dos maiores medos que enfrentei foi no dia de pular no abismo de caixas de papelão que fizemos no quintal. Os banhos no latão de água captada da chuva, as panelinhas feitas de barro, minha coleção de caquinhos de vidro, nossos brinquedos de tampinha de garrafa, minha colcha de retalhos feita pela minha avó, o meu primeiro sutiã que foi da Sandra e o dia que quase fiquei corcunda pois quis tomar de volta uma boneca que dei pra ela...
Minha mãe enfática: Quem dá e depois toma de volta, fica corcunda !
Os livros do meu tio, a bicicleta do outro que na verdade era de todos nós, até o cachorro, todo mundo era dono.
Aquilo não é casa, é um circo...
E aqui vou eu, uma lágrima pintada na cara, uma flor na mão e a cambalhota ensaiada para quando fingir escorregar nas cascas de banana da vida...